sábado, 22 de março de 2008

Benzetacil

Dói pra porra! Dói pra caralho! Puta merda, como dói!

Que é isso! - diriam alguns. - Já começa esculhambando!

É verdade, inicio enumerando as sutis exclamações proferidas por aqueles que passaram pela não muito alegre experiência de terem uma injeção de benzetacil - ou benzilpenicilina benzatina, conforme descobri na vebe* - aplicada em seus braços ou nádegas.

No meu caso, felizmente, raras foram as vezes em que tive de recorrer a tão drástico tratamento. É verdade que durante minha mais tenra infância fui submetido a várias delas para tratar de algumas erupções cutâneas, ou perebas. Contudo, para minha alegria, recordo-me muito pouco desses dias, a não ser pelo sempre relembrado fato de que minha mãe toda vida tinha que fazer um percurso diferente em direção à farmácia, pois eu já era conhecedor do que me aguardava e não estava definitivamente disposto a colaborar com a inexplicável sessão de torturas. Lembro-me também das balas - bombons, no Ceará -, embarés e outras guloseimas para mim oferecidas como suborno para que eu me encaminhasse ao abatedouro de modo menos exasperado.

Meu pai, de outra forma, encontrou-se com a benzilpenicilina benzatina por diversas vezes. Não vale nem a pena lembrar aqui de todos os casos, mas o fato é que um médico chegou a prescrever-lhe algumas dezenas delas, as quais, salvo engano, ele dispôs-se a tomar. O doutor que fez essa sutil recomendação era do serviço público e tal fato está de certo modo relacionado com o evento que inspirou este pequeno texto.

Voltando à minha modesta experiência pessoal, tive até agora apenas dois encontros com a benzetacil durante a vida adulta. Por sinal, pode-se dizer que foi praticamente um único contato, já que se tratou da mesma gripe e as aplicações ocorreram com a separação de poucos dias. Nessa época, eu morava em um quartinho alugado na casa de uma senhora bastante peculiar e, graças ao descuido com a saúde característico daqueles que vivem sozinhos, minha leve gripe transformou-se em verdadeiro transtorno. Eu tinha uma namorada na época, que depois veio a transformar-se em esposa, e ela recomendou umas pastilhas de nome parecido com Bernadete, as quais, devido ao exagero no consumo, literalmente estropiaram minha goela.

Com a garganta plenamente lascada, não podia ingerir praticamente nenhum alimento - até água de coco não passava - e tive que apelar para uma prima que possuía algum conhecimento na área médica. Ela me disse que o bom seria tomar logo uma benzetacil, pois o problema passaria menos lentamente. Decidi - a despeito da minha implicância com injeções - aceitar a sugestão e fui à primeira farmácia que encontrei, lá comprando duas ampolas do famigerado líquido e também duas seringas, que, só de olhar, me davam certo mal-estar.

De posse do medicamento, voltei ao apartamento e confabulamos acerca do melhor local para a incisão do líquido. Como tinha vergonha de mostrar a poupança, decidi que a aplicação seria no braço direito. Tomada a decisão, entreguei minha alma a Deus. Ela, então, injetou calmamente a benzilpenicilina e eu senti aquele líquido viscoso rasgando lentamente a carne próxima ao meu ombro. Devo dizer que doeu bastante - como diz a música do João Bosco - e que fiquei com alguma dificuldade para mover o braço. Tomando como base a experiência anterior, procurei deixar o orgulho de lado e decidi que a próxima aplicação seria nas nádegas. Devo dizer que me arrependi profundamente dessa decisão, pois a segunda experiência foi mais dolorosa que a primeira. Felizmente, o efeito da benzetacil foi rápido e não demorei muito para ficar bem novamente.

Contudo, o causo mais interessante de que me lembro relacionado à benzetacil ocorreu com um tio meu. Ele estava com algumas inflamações de origem indeterminada pelo corpo e resolveu dirigir-se a um posto de saúde - ou hospital, sei lá. Como a grande maioria dos cidadãos brasileiros, principalmente os com recursos limitados - que são quase todos -, ele teve que procurar o serviço público. Lá chegando, foi atendimento por um daqueles médicos que acredito serem pagos de acordo com sua produtividade e o despachou apressadamente. Mal levantou a vista para olhar o paciente, não fez lá muitas perguntas e receitou, num arranque, injeções da já famosa benzilpenicilina benzatina.

Meu tio, não depositando lá muita confiança no diagnóstico e na prescrição dada pelo médico, tomou o rumo de casa após receber o medicamento - gesto este realizado de modo um tanto maquinal. Filosofando em sua bicicleta - meio de locomoção típico dos habitantes do interior do Ceará, substituído gradativamente pelas motos -, pedalou por vários quilômetros até chegar a uma ponte de madeira que passa sobre o famoso rio de sua cidade natal. Sobre as tábuas que o separavam das limpas águas - ainda pouco tocadas - desceu do veículo, colocou-o deitado sobre as madeiras e sentou-se, deixando os pés balançando no vazio. Olhou para o rio que corria sob seu corpo, pegou distraidamente as ampolas no bolso de sua camisa - aquele, que fica sobre o coração - e abriu-as, uma a uma. Em seguida, verteu tranqüilamente seu conteúdo nas águas calmas do rio e observou os peixes indo em sua direção. Levantou-se, então, pegou sua bicicleta e rumou lentamente para casa.

Chegando ao sítio, contou à esposa e familiares sua ida à cidade, falou acerca dos exames superficiais e da indiferença do doutor, e narrou sua rebelde atitude de derramar o antibiótico no rio, terminando com a seguinte frase - causadora de estrondosas gargalhadas em uma prima minha e de uma conseqüente repreensão por parte de outra -, enunciada no legítimo sotaque sapesista:

- Bonito mesmo era ver os peixinhos abrindo a boca e bebendo o remédio!

Perguntado sobre o motivo que o levou a tal gesto, mandou outra pérola:

- Fiz isso porque não sou rico. Se fosse rico, o médico tinha dado outro remédio. Para pobre, só dão benzetacil.

*Vebe é como chamamos, às vezes, a Web - ou World Wide Web. Para resumir, a Internet.

domingo, 2 de março de 2008

Brasilianos e o ócio criativo

Há tempos tive vontade de ler "O ócio criativo" de Domenico De Masi. Um dia desses, passando por uma livraria, encontrei um exemplar em exposição e, como compulsivo por livros, adquiri o mesmo. Achei sua leitura bastante interessante, encontrando passagens com as quais sempre concordei, mas nunca havia visto impressas. Outro dia, lendo uma dessas execráveis revistas semanais numa sala de espera de consultório médico, deparei-me com um artigo de um dessas pessoas alienadas e iludidas pelo universo corporativo - Stephen Kanitz - e minha relação de cumplicidade com o ócio criativo aumentou ainda mais.

Como já há muito tempo percebi que as novas informações importantes chegam a mim sempre duas vezes, separadas entre si por um pequeno lapso de tempo, gostaria de explicar o que o Kanitz tem realmente a ver com o ócio criativo e com este relato.

Numa quarta-feira à noite, assistindo a uma aula de português - como muitos em meu país, buscando trabalhar no serviço público - vi minha professora - uma doce e competente vovó sulista - comentando um artigo cujo autor fazia referência ao fato de sermos denominados brasileiros e não brasilianos. De acordo com os argumentos que ouvi dela, e que poucos dias depois li no artigo do próprio Kanitz - vindo daí minha observação acerca dos eventos que vêm aos pares -, o defensor da idéia, deveríamos ser chamados de brasilianos, tal como acontece, em nosso idioma, com os italianos, os iranianos e os bolivianos. Pelo que me lembro do texto, somos chamados de brasileiros desde o início de nossa colonização por Portugal, sendo esse termo utilizado para referir-se àqueles que vinham às nossas terras explorar as riquezas e depois retornavam à metrópole, deixando apenas destruição e nada em troca.

Assim, Kanitz defende a idéia de que apenas os exploradores - no mau sentido - do Brasil, aqueles que desejam apenas auferir benefícios sem pensar na coletividade e no desenvolvimento da nação, deveriam ser denominados brasileiros. Os outros, os legítimos cidadãos, preocupados com o país, dotados de integridade, de força laboral e de compromisso com um futuro melhor para todos, seriam os brasilianos, entre os quais o autor se incluía.

É óbvio que concordei, de pronto, com os argumentos da professora e, depois de ler o texto, com as explicações mais elaboradas do mesmo. Passei a querer denominar-me, desde então, brasiliano, decisão da qual não me arrependi, pelo contrário, acho que isso deveria ser levado realmente a sério e colocada a questão em debate nacional, substituindo tantos outros colóquios, que geralmente versam sobre temas muito menos pertinentes.

Mas o que tem a ver todo esse papo de brasilianidade, da professora de português e do Stephen Kanitz com o ócio criativo do De Masi? Bem, sentado na sala de espera da clínica, lia com bastante interesse o artigo da malfadada revista, concordava com o que via, mas, num determinado momento - desses que apenas reforçam minha constatação de que as novidades chegam-me aos pares -, percebi uma crítica de Kanitz a De Masi. O autor falava que brasileiro gostava de "O ócio criativo", livro mais conhecido, aqui no Brasil, com as idéias do sociólogo italiano. Deste modo, compactuar com as idéias de De Masi representava uma falta, talvez tão grave quanto ser corrupto. Talvez Kanitz não tenha lido o livro, ou não tenha entendido do que se tratava, ou então está muito velho e condicionado a um mundo antigo a ponto de não perceber o equívoco de seu posicionamento.

De Masi fala da sociedade pós-industrial, tema recorrente no livro, e de várias características importantes da mesma. Discorre sobre o teletrabalho; sobre a altamente recomendável redução no número de horas trabalhadas por semana; fala da necessidade de criar meios para o bom aproveitamento do tempo livre; trata da evolução quantitativa do trabalho de tipo intelectual-criativo e da concomitante redução de importância daquele de caráter mecânico, que requer pouca ou nenhuma qualificação; o sociólogo critica, ainda, a rigidez das empresas, dos governos e dos sindicatos, bem como a demora em perceber as mudanças em curso, principalmente o fato de que os empregos jamais crescerão numa velocidade grande o bastante para abarcar o aumento da população, tendo em vista a constante automação. Assim, não importa o que digam governantes e empresários, a auto-sustentabilidade do crescimento econômico e os grandes investimentos que vemos acontecer - quer dizer, que nem sempre vemos acontecer - nunca serão suficientes para proporcionar trabalho a todos, a menos que importantes mudanças legislativas ocorram.

Assim, apesar de achar que De Masi de vez em quando exagera nas previsões e mostra falta de domínio acerca de alguns temas, acredito que muito do que ele diz é acertado, que no futuro trabalharemos bem menos - em quantidade de horas e dias da semana -, sem prejuízo para a produtividade - conceito tão caro ao pessoal da gestão -, que teremos de aprender mecanismos para aproveitar o tempo ocioso e que o trabalho exigirá cada vez mais conhecimento e criatividade. Deste modo, acho equivocada a posição de Kanitz, rebaixando aqueles que se identificam com "O ócio criativo" ao grupo dos chamados brasileiros.

Acredito, ao contrário, ser um brasiliano. Sou otimista quanto ao futuro da humanidade e acho que menos trabalho, mais lazer, mais conhecimento e criatividade serão algumas das características dos melhores tempos que virão.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Cenas do trânsito 1 - Vende-se um inalador moderno

Ando sempre de carro e o trânsito é foda. Na época do Chevette, passava calor e estresse. Agora que as coisas melhoraram um pouco - veja só, tenho um carro com ar-condicionado-, o tráfego é que enlouqueceu. Sei lá, a economia sofreu aquecimento, assim como o clima, ou então o êxodo está se fortalecendo. Acho que é isso, tem o êxodo do pobre - sem carro, pedestre, ciclista ou usuário de "buzão" - vindo das cidades pequenas do estado, fugindo da seca de políticas públicas, e o do rico, ou remediado - palavra antiga-, escapando da fria loucura cinzenta de cidades sulistas, caindo na recente loucura ensolarada de Fortaleza.

Bem, é no meio deste trânsito que eu mergulho todos os dias, de modo apressado, automático, e às vezes ensandecido. São inúmeras viagens por dia, graças aos múltiplos compromissos que temos de assumir e à grande distância entre minha casa e as partes mais "nobres" da cidade. A marcha é sempre rápida, acompanhada pelo sentimento constante de urgência e com reduzidas oportunidades de contemplação do cotidiano. Se a filosofia oriental prega que o mais importante é o caminho e não o destino, é porque seus criadores não conheciam o trânsito moderno. Atualmente, o essencial é sair do caminho.

Envolvido neste tipo de torpor, é muito rara a oportunidade de prestar atenção em coisas belas e singelas, de perceber a riqueza dos momentos simples. Movendo-nos como máquinas operando outras máquinas, perdemos importantes pedaços de vida que poderíamos aproveitar e compartilhar. Devo, contudo, confessar que desenvolvo todo este raciocínio para comentar uma exceção ao entorpecimento causado pela urgência.

Trata-se de uma cena que guardarei para sempre na lembrança, e que representa um de meus primeiros contatos com a morte: a imagem de uma ambulância estacionada em frente à casa de um amigo de infância, morador da mesma rua. Eu contava na época com uns oito anos e aquela imagem chamou minha atenção. O enorme carro branco parado dava uma aparência triste a um lugar que me reservava, normalmente, muitas alegrias, pois lá eu costumava correr e brincar. Ao mesmo tempo, fiquei curioso por saber a razão da presença daquelas pessoas em minha rua. Perguntei aos vizinhos próximos e fui informado que a mãe do garoto havia tido um problema no coração e que os médicos foram chamados. Em seguida, disseram-me que não tinha sido possível fazer nada e que ela morrera.

A notícia da morte da mãe deste meu amigo deixou-me muito triste, pois me fez lembrar de que qualquer outra mãe poderia ter - e, claro, algum dia teria - o mesmo destino. Recordo-me que fiquei um bom tempo preocupado com a saúde da minha, temeroso que o mesmo ocorresse com ela. Deste modo, o fato é que a lembrança da ambulância parada em frente à casa de meu amigo gravou-se fortemente em minha memória e, sempre que vejo situação semelhante, minha atenção é logo despertada.

Assim, mesmo entorpecido pela atividade de guiar, percebi, voltando do trabalho, que havia uma ambulância na frente de uma casa localizada num ponto qualquer do meu trajeto rotineiro. Fiquei tolamente consternado com a possibilidade de que alguém houvesse morrido e lembrei-me da mãe de meu amigo de infância. Apesar da curiosidade, o automatismo comandou minhas ações e não pude perceber mais detalhes da cena. Contudo, daquele dia em diante, passei a observar instintivamente o lugar em minhas viagens de retorno a casa.

No dia seguinte, pude entrever pela janela uma pessoa idosa deitada numa cama, destas que se usa em hospitais, protegida nas laterais para evitar possíveis quedas. Meu entorpecimento foi vencido por alguns segundos e consegui observar o corpo da senhora conectado a alguns tubos de plástico que conduziam ao reservatório de soro. Ela estava com uma máscara no rosto, talvez fosse um inalador, e eu fiquei feliz, pois, ao contrário da mãe do meu vizinho, ela sobrevivera.

Nos tempos que se seguiram, pude acompanhar a recuperação da velhinha. Primeiro, a ausência dos incômodos tubos. Em seguida, foi-me possível notar seu corpo sentado na cama. Ela notoriamente ganhava forças. Algumas semanas depois, já estava sentada numa cadeira de rodas, na calçada. Por algum motivo, achei a cena maravilhosa. Para mim, aquela velha senhora era linda.

O estágio da cadeira de rodas foi bastante longo, mas, num certo dia, vi-a dando difíceis passos dentro de casa. Fiquei emocionado. Sua recuperação estava indo de vento-em-popa. Por alguma razão, talvez devido à sua melhora, comecei a esquecer de observá-la diariamente. Dali por diante, passei muitas vezes de modo automático pela casa sem prestar atenção em sua moradora. Somente de vez em quando, mais por acidente - ou talvez pelo velho costume -, vislumbrava a velhinha caminhando pelos cômodos. Era rara a ocasião em que eu olhava para dentro e não conseguia vê-la.

Assim, praticamente esquecido de sua existência e cercado pelas atribulações mecanizadoras do cotidiano, passei muito tempo sem sequer lembrar-me de virar o rosto para ver como ela estava. Passaram-se semanas, talvez meses, sem que sua imagem voltasse à minha mente. Contudo, numa determinada noite tive um sonho no qual eu voltava a ter oito anos de idade e brincava alegremente no quintal de casa. Convidei, por cima do muro, um vizinho para jogar bola na rua e, quando saía na calçada para divertir-me, vi uma ambulância estacionada umas cinco casas além. Acordei sobressaltado, mas voltei a dormir sem dar maior importância ao sonho ruim.

No outro dia, ao voltar do trabalho, possivelmente compelido de modo inconsciente pelo sonho da noite anterior, parei brevemente para observar a velhinha em sua casa. Contudo, ao invés de sua presença, encontrei um cartaz escrito numa caligrafia ruim, pregado sobre a nova pintura da fachada, dizendo:

Vende-se
Inalador moderno
Colchão de água
Cadeira de rodas

Depois desse dia, nunca mais a vi.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Antígona, o Senhor 903 e o Argelino

Morreram. Depois de tanta luta, tanta ambição, tanto sofrimento, morreram. Dois irmãos, dois corpos, dois destinos. Coube a um deles cerimônia formal, pomposa, digna. Ao outro, restariam os abutres. Que razões haveria para tal diferença, se irmãos?

Decretado o edito, tendo a lei criado corpo, a Polinices não cabia nem o choro, nem o sepulcro. Creonte, investido de poder real, manifesta a norma a ser quebrada por Antígona. Ela, irmã e representante da família e de suas tradições, é incapaz de seguir as ordens positivas, pois outros valores lhe são mais caros.

A Antígona impõe-se a força de um direito natural baseado em crenças religiosas, na ética e na tradição. Para a maioria das civilizações clássicas, bem como para algumas modernas - como a japonesa ainda no século XX -, o culto aos mortos tem caráter religioso - bastando lembrar os deuses lares romanos -, sendo, na maior parte das vezes, venerados os bons antepassados e temidos os maus. Para a personagem que dá nome à peça de Sófocles, enterrar Polinices era um dever com força superior às ordens do rei. Assim, contrariando Creonte, ela chora pelo irmão, realiza seu funeral e é condenada à morte.

Esse conflito entre Antígona e Creonte é bastante conhecido, sendo debatido por filósofos, juristas e outros pensadores, que o classificam, grosso modo, como um embate entre o Direito Natural e o Direito Positivo. A existência de divergências entre o que é aceito normalmente por uma sociedade - mediante tradições, crenças e costumes incorporados à vida cotidiana - e o que seu ordenamento jurídico preceitua é, infelizmente, fenômeno bastante comum. Nem sempre os legisladores acompanham a evolução de seu povo ou se interessam por fazer com que as normas reflitam a sociedade. Em muitos casos, estes legislam com interesses outros que não o público, tornando as normas injustas e inaceitáveis. Essas discrepâncias muitas vezes geram situações dramáticas, causadoras de comoção social e deflagradoras de questionamentos acerca da legitimidade daqueles que exercem o poder.

As leis, por sua natureza, são normas que buscam cercear, em nome do bem comum, direitos individuais - como diria Foucault, "poder é tudo aquilo que reprime" -, sendo a busca pelo justo e pelo correto - conceitos relativos - o ideal que deveria nortear o legislador, tendo como referência sempre o interesse público. Contudo, normas são formuladas em meio a muitos conflitos e representam a opinião de uma parcela apenas das pessoas. Assim, é comum que a necessidade e o desejo individual entrem em desacordo com elas.

Além da tragédia de Antígona, é possível encontrar em inúmeros outros textos casos de conflitos entre normas legalmente instituídas e comportamentos guiados por valores sociais, como a tradição, a ética e a moral. Dois bons exemplos encontram-se em Recado ao senhor 903 - de Rubem Braga - e As flores do argelino - de Marguerite Duras.

Esses conflitos ocorrem, por exemplo, no texto Recado ao senhor 903, onde o vizinho do 1003, ou Senhor 1003, não nega a razão legal do outro quando este o recrimina por perturbar o silêncio noturno. Ele reconhece que depois das 22 horas é proibido fazer barulho e que o condomínio tem punições estabelecidas para quem infringir essa norma. O que o deixa insatisfeito e que o faz desabafar é o caráter desumano do debate. As pessoas moram próximas, mas não sabem os nomes umas das outras, exigem que seus direitos sejam respeitados, mas não buscam um mundo melhor. Há aí o contraste entre a norma, a realidade fria, e o ideal humano. Para reforçar o caráter natural que o senhor 1003 dá a si mesmo, ele se compara ao Oceano Atlântico “bramindo ao sabor da maré”. Diz que é agitado, barulhento, e que desrespeita os horários civis. Afirma que vai tentar mudar, fazendo outra comparação entre ele mesmo e a natureza: passaria a ser um “manso lago azul”. Procuraria não fazer mais barulho à noite e não incomodar a vizinhança, ficando “dentro dos limites de seus algarismos”, não mais uma pessoa e sim um conjunto de números e códigos. Esse desabafo irônico é concluído quando ele manifesta sua real opinião, seus verdadeiros sentimentos: ele sonha com um mundo onde as pessoas compartilhem suas vidas, seus bens, ouçam música juntas, comam do mesmo pão e bebam do mesmo vinho. Possam se visitar, aproveitar a vida, “agradecer o brilho das estrelas”, “a amizade entre os humanos, o amor e a paz”. Assim falando, o senhor 1003 enaltece o lado humano das relações, lamentando que estas sejam normalmente reguladas por um frio pedaço de papel.

No texto As flores do argelino, Marguerite Duras faz um relato comovente da situação de um imigrante africano na França. Diferentemente do senhor 1003, o argelino não tem espaço para manifestar o desejo por um mundo melhor, não pode desabafar. Ele é apenas alguém tentando sobreviver, buscando defender o mais importante dos direitos naturais - o de viver - em um mundo que não o quer, que o persegue, mas que, todos sabem, precisa dele. Aqui, a Lei proíbe o exercício do trabalho que poderia garantir sua miserável existência: a venda de flores. Os policiais apreendem suas flores e as espalham pelo chão, levando o argelino à delegacia ao final da estória. Nesse meio tempo, uma senhora incentiva a ação dos oficiais, externando seu preconceito e sua intolerância. Quando parecia que um negro retrato da humanidade estava sendo esboçado, surge outra senhora que, infringindo a lei, apanha algumas flores e as compra do rapaz. Seu gesto é repetido por outras senhoras até não restar mais flor alguma a ser vendida. A atitude das mulheres é contrária à lei, mas não é contrária ao que elas entendem por moral, por ético. Assim, também aqui é questionado o papel da lei que desumaniza, que não é capaz de tratar de todas as situações complexas da realidade. O direito natural à vida, ao respeito e à dignidade faz com que as senhoras ignorem a norma legal, se humanizem, e resgatem também a humanidade do imigrante.

Sejam os atos e pensamentos guiados pelo amor ao irmão e pelo senso de justiça, como em Antígona, ou pelo sonho de um mundo mais fraterno, como no texto de Rubem Braga, ou ainda pela solidariedade, como na história de Marguerite Duras, o fato é que eles entram em conflito com o legal, com a norma estabelecida. O que está em voga nos textos é a discussão sobre até que ponto a Lei é suficiente para tratar das questões humanas. Sendo ela criação dos homens, não estaria cheia de defeitos como nós mesmos? Seria a verdadeira justiça o que está fixado nos papéis ou haveria espaço para a interpretação humana? Não estariam as pessoas se escondendo atrás da Lei para evitar o contato com o próximo? Seja qual for a resposta, os textos mostram o ser humano vivendo esse conflito, sendo que em um deles a esperança pela vitória do espírito humano morreu com a protagonista, no outro ela existe apenas em sonho e no último ela ganha vida no mundo concreto através de um pequeno gesto.

Observação: A referência a Foucault foi retirada do texto de Sueli Cavendish, Um romance mirando outro, seu avesso, acessível no endereço http://www.pernambuco.com/diario/2002/04/09/viver7_1.html.

sábado, 5 de janeiro de 2008

Toca Filosófica


O universo (que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no centro, cercados por balaustradas baixíssimas. De qualquer hexágono, vêem-se os andares inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte prateleiras, em cinco longas estantes de cada lado, cobrem todos os lados menos dois; sua altura, que é a dos andares, excede apenas a de um bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito vestíbulo, que desemboca em outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do vestíbulo, há dois sanitários minúsculos. Um permite dormir em pé; outro, satisfazer as necessidades físicas. Por aí passa a escada espiral, que se abisma e se eleva ao infinito. No vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?), prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz procede de algumas frutas esféricas que levam o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.

Não, claro que não, o parágrafo acima não é meu, quem dera. É um excerto do ensaio A Biblioteca de Babel, de Jorge Luis Borges. Fala de uma imensidão de livros, em infindas salas hexagonais, contendo todas as possíveis combinações dos símbolos alfabéticos. Para encontrar o que chamamos de coerência em um ambiente assim é necessário gastar, talvez, uma vida inteira. Em compensação, pode-se ter certeza de que lá estão presentes A Odisséia, o Quixote, ou As Mil e Uma Noites em incontáveis combinações, diferindo entre si, quem sabe, somente por um único sinal gráfico. Os habitantes deste universo, os bibliotecários, vêm tendo seu número reduzido gradativamente, pois são constantes vítimas de conflitos entre grupos rivais ou de fanáticos das mais variadas ideologias, sendo também freqüentemente acometidos por depressão, loucura e doenças pulmonares. Dizem que seus restos mortais são lançados no infinito vão, onde se decompõem lentamente em sua queda eterna. Melancólico, poético, não sei que adjetivo usar, mas a imagem de um mundo assim é certamente muito forte e recorrente em minha mente, pois sempre que me lembro de um determinado local, vem-me à lembrança essa descrição do escritor argentino.

O local a que me refiro é conhecido, por um secreto grupo - ou seria seita? - de afortunados bibliotecários, como Toca Filosófica. Sempre que entro nesse lugar, fisicamente ou em lembrança, tenho a convicção de se tratar de um dos hexágonos borgianos - ainda que em nosso universo quadridimensional esse ambiente pareça ter sido construído apenas com as quatro paredes convencionais. Do mesmo modo, também me parece impossível pensar em seu curador como outra coisa a não ser um daqueles alucinados personagens recém-materializado, oriundo da mente do argentino. Esse bibliotecário em particular, seguindo sua tão propalada vocação de líder religioso - sim, religião é uma de suas paixões -, arrebanha - com seu carisma inimitável, sua oratória sertaneja e sua erudição proveniente de um contato secular com tão precioso acervo - uma legião de seguidores, infectados por um mal comum às traças, a alguns esquisitões, a diversas modalidades de lunáticos e a outros assemelhados: a bibliofilia - no caso das traças talvez seja bibliofagia. Essa doença que, como tudo nesse mundão de meu Deus, têm duas facetas, uma boa e outra não, contagia a todos os que entram em contato, seja com o bibliotecário-pastor, seja com os livros aos quais ele pertence. Sim, é isto mesmo, ele pertence aos livros, e não o contrário. É o mesmo fenômeno que ocorre com os personagens de Borges, habitantes de um mundo recheado por infinitas obras - neste caso em especial, elaboradas por mãos divinas, ou melhor, demiúrgicas.

Cabe aqui uma correção. Empolgado com a capacidade do bibliotecário em estimular, mesmo que indiretamente, o encanto pelas escrituras - em minúsculo -, acabei por incorrer numa inverdade: afirmei que o Mal da Toca atingia a todos. Como pude esquecer as minhas aulas de biologia, ainda que distantes no tempo, nas quais aprendi um pouco sobre genética e também acerca de doenças contagiosas? Como é possível não ter em mente que doença alguma é capaz de atingir toda a humanidade? Joguei Darwin no lixo e não levei em conta que, numa amostra tão grande quanto a espécie humana - seria algo em torno de 6 bilhões? -, é impossível não encontrar diferentes genes que propiciem a seus portadores imunidade a qualquer mazela, conhecida ou vindoura. Assim, mesmo que a maioria se infeccione ou pelo menos sinta uma alteração de estado favorável ao entrar na aludida Toca Filosófica, existem aqueles que são imunes, nos quais os agentes infecciosos do referido mal são inofensivos. Entre os que estão neste grupo, há o célebre caso de uma mulher - diz-se que bastante interessada pelo bibliotecário -, ignorante acerca da origem e do valor de tão grande acervo, que sugeriu a doação do mesmo ao ferro-velho. Essa é uma idéia que mistura falta de sensibilidade com total inadequação técnica, pois, em tempos de aquecimento global, ela deveria ter, ao menos, sugerido a entrega dos tomos a uma usina de reciclagem de papel. É necessário, ainda, mencionar uma outra categoria de pessoas, além dos doentes e dos imunes: os alérgicos. Nesse grupo enquadro a mãe deste que redige, constante sofredora ao freqüentar esse e outros ambientes, repletos de pequenas criaturas que coabitam o lar dos bibliotecários espalhados por aí.

Afora esses imunes à bibliofilia e aos sofredores com a possível insalubridade do ar, todos os outros manifestam admiração e reverência ao rico acervo e ao empenho demonstrado por seu curador, um dos poucos bibliotecários remanescentes do mundo criado por Borges, habitante dessa "Babilônia de Papel", como diria uma certa poetisa. Esse elemento, conhecido por alguns do meio como Velho Jagunço, Livreiro Audaz, ou mesmo Moita Brava - aquele que adora dar informações de ruas para a turba ignara -, é carinhosamente chamado pelos amigos de Canalha - impossível passar despercebida a semelhança desse apelido com o do escritor teuto-americano Charles Bukowski, conhecido como Velho Safado. Pois bem, esse canalha tem lido, escrito e militado no mundo das letras por quase cinqüenta anos, sendo um dos grandes divulgadores culturais de sua região. É válido ressaltar que através de sua iniciativa, em conjunto com outros canalhas locais, diversos movimentos literários tomaram corpo e ajudaram a enriquecer o mapa artístico do grande ABC.

Esse bibliotecário foi um dos fundadores do Colégio Brasileiro de Poetas de Mauá; escreveu resenhas, artigos, críticas, poesias e contos para vários jornais; prefaciou diversos livros e publicou outros tantos; foi livreiro em São Paulo, conhecendo todos os meandros desse comércio na capital paulista; enfim, ajudou a aumentar a riqueza da grande biblioteca que, mesmo sendo infinita, cresce com a presença de novas aquisições. Apesar de já ter lançado várias obras, tenho a impressão de que muito ainda está por vir, de que existe bastante material guardado, no papel e em sua mente fértil. Acredito que seremos brindados no futuro com mais de seus textos, cujas marcas principais são a imensa criatividade, o colorido regional de sua Chapada Diamantina, o humor que não perdoa nada nem ninguém, e a abundância de personagens com nomes esdrúxulos, dentre os quais me recordo de Genocídio Geronso Garrafino - de iniciais GGG, nada a ver com KKK de Ku Klux Klan-, pastor da igreja "Jesus Virá, Aleluia!...", o qual possui uma marca do seu criador: o talento de pregador, arrebanhando fiéis e inimigos. O pastor Genocídio proclama o reino dos céus, mas sempre com uma boa dose de pilantragem, enquanto o bibliotecário, canalha, mas não pilantra, prega o culto ao universo das letras, das idéias, o culto da infinita biblioteca. Diversos e assemelhados, criador e criatura enriquecem nossa vida e nos dão prazer com seus causos, piadas e lorotas.

Parabéns ao bibliotecário, Mr. Theodor.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Diofante de Alexandria

Este sujeito, o Diofante, apesar de ser conhecido como de Alexandria, não tem local de nascimento determinado - tampouco a data é conhecida, suspeitando-se que nasceu em torno de 250 d.C. É sabido, no entanto, que foi um grande matemático - chamado por alguns de pai da álgebra -, tendo publicado um grande tratado, em 13 volumes, denominado Aritmética.

Essa obra, arquivada na famosa biblioteca, resistiu a muitos desastres "batizados" com nomes de prestígio - Júlio César, bispo Teófilo, califa Omar... Tempos mais tarde - após escapar de romanos, cristãos e muçulmanos -, muitos escritos guardados em Alexandria foram reunidos em Constantinopla e lá ficaram mantidos até a invasão da cidade pelos turcos, em 1453. Os estudiosos bizantinos salvaram apressadamente os textos que puderam carregar e os levaram para a Europa, onde tais escritos, felizmente, ajudaram a elevar o conhecimento ocidental.

Dos treze volumes da Aritmética, apenas seis foram salvos, tendo uma cópia chegado à casa do matemático francês Pierre de Fermat. Tratava-se da tradução para o latim realizada por Claude Gaspar Bachet de Méziriac, auto-intitulado homem mais culto, e humilde, da Europa. Conta-se que, analisando a equação de Pitágoras - aquela sobre os quadrados dos catetos e da hipotenusa, a qual toda criança estuda - Fermat teve a iluminação de formular seu famoso teorema, que passaria mais de trezentos anos para ser demonstrado.

Mas não é sobre este teorema que desejo falar - pelo menos não agora. A razão deste texto é o tal do Diofante, que tem até uma espécie de problemas matemáticos batizada com o seu nome. Em seu livro, o antigo sábio desenvolveu mais de cem desses problemas, todos com soluções didaticamente detalhadas. Diofante ficou, assim, conhecido por seus enigmas - tanto que alguns chegaram a dizer que, em sua homenagem, uma questão foi gravada na lápide de seu túmulo:

Deus lhe concedeu a graça de ser um menino
pela sexta parte de sua vida. Depois, por um
doze avos, ele cobriu seu rosto com a barba.
A luz do casamento iluminou-o após a sétima
parte e cinco anos depois do casamento Ele
concedeu-lhe um filho. Ah! criança tardia e
má, depois de viver metade da vida de seu pai
o destino frio a levou. Após consolar sua
mágoa em sua ciência dos números, por
quatro anos, Diofante terminou sua vida.

O que me chama a atenção, além da curiosidade de ler tal tipo de texto numa lápide, é a qualidade do mesmo. A expressão "Ah! criança tardia e má" é muito forte e dá um sentido de grandiosidade, e de desalento, à passagem. Outros momentos, como "luz do casamento" e "destino frio", também são ótimos. Formulado de modo tão eloqüente, um enunciado matemático como este se torna belo, mostrando que é possível dar valor literário a qualquer tipo de texto. Por sinal, venho sempre perguntando aos meus botões: seria alguém realmente capaz de definir literatura? Quem teria tal autoridade? Mais ainda: haveria necessidade dessa definição?

E a propósito - ia me esquecendo! -, com que idade morreu Diofante?


P.S.: As informações acima foram retiradas do livro O último teorema de Fermat, de Simon Singh, publicado pela editora Record.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Ayrton Senna


Certamente não sou alguém a quem se possa chamar de religioso. Desde os dezesseis anos, quando Noé e sua arca passaram a me causar sérias desconfianças intelectuais, meu ceticismo vem aumentando - tanto em relação às escrituras e suas interpretações, quanto, principalmente, à organização das igrejas, entre elas a Católica, e a seus potentados. Ainda assim, posso dizer que sinto, de modo bastante contraditório, um forte sentimento de religiosidade que se manifesta de diferentes modos e em variadas ocasiões, sendo algumas delas bastante inusitadas.

Esse sentido de religiosidade, de estranheza perante o desconhecido, de assombro ante o inexplicável, manifesta-se repentinamente, e repetidamente, nas mais diversas ocasiões e lugares, sendo a motivação deste sentimento muitas vezes indeterminada. Contudo, no caso que vou relatar, a razão é de fácil percepção. Acredito firmemente que muitos têm a mesma sensação que eu, talvez manifesta até de um modo mais vigoroso, e agradeço que assim seja, pois não tenho vocação para vidente, feiticeiro ou médium, e não gostaria, de modo algum, de ser o único a senti-la.

O caso a que vou me referir é o da tão lembrada, e lamentada, morte do Ayrton Senna. Assim como no dia 11 de setembro de 2001, qualquer um que viveu o primeiro de maio de 1994 e tinha idade suficiente para não calçar os sapatos de modo invertido, lembra-se perfeitamente do que estava fazendo no exato momento do desastre. No meu caso, recordo-me de estar acordando com uma tremenda ressaca, de ver, quando cruzei a porta do quarto, meu pai sentado no sofá da sala, o de três lugares, e do barulho da TV transmitindo a corrida. Como de costume, perguntei se o Senna já tinha vencido, pois as duas primeiras provas do ano haviam sido ruins para o piloto brasileiro e sabia que ele viria com tudo para San Marino. Para meu grande assombro, ele respondeu, desolado, que o Ayrton havia morrido. Abismado - eu, um jovem e destemido universitário, não supunha que essas coisas acontecessem -, corri para frente do televisor a fim de desmascarar aquela brincadeira de mau gosto. Assim que olhei para a tela, entretanto, percebi que não se tratava de uma pegadinha e que o caso era grave. Logo que vi seu corpo no chão, naquela posição com "pés de defunto" - pois estes estavam abertos, distantes, imóveis, iguais aos dos mortos - senti que não havia mais o que fazer e fiquei estático, atônito, em pé, defronte ao aparelho. A voz do Galvão Bueno, triste, chorosa, soando qual um réquiem, associada àquela terrível imagem, agia como um estímulo hipnótico em meu cérebro, impedindo-me de sair da minha letargia, do meu torpor. Quando, finalmente, de modo mecânico, sentei-me no outro sofá e vi o helicóptero levar o corpo, quis ter um fio de esperança, tentei nutrir uma vaga ilusão, mas, na realidade, sabia que uma importante história havia se encerrado.

Logo que tudo se consumou, eu, que sempre fui fã do Nélson Piquet - o primeiro brasileiro campeão que tive a oportunidade de acompanhar - e não tinha tanta simpatia assim pelo Senna, fraquejei, dei o braço a torcer, deixei-me levar pela força do momento e percebi que toda aquela rixa, a disputa ferrenha e a inimizade feroz só faziam sentido enquanto havia vida. Minha má-vontade para com o Senna, todos os argumentos racionais para não gostar dele, todas as desconfianças e picuínhas, tudo, enfim, caiu por terra. Naquele momento me dei conta de como eram pequenas e sem importância as minhas convicções, pois, diante da morte, muitas vezes o essencial surge, cristalino; a verdade aparece, inegável; freqüentemente o véu ilusório se desvanece, deixando transparecer o óbvio, que, apesar de estar bem diante de nós, é comumente ignorado. Para resumir, devo confessar-me: passei a ver nele o melhor piloto de todos. Assumo, portanto, que não fui daqueles que insistiram no erro - pois acredito, sim, que estava enganado -, fui dos que mudaram de opinião. Podem chamar-me de "Maria vai com as outras", de pusilânime, ou, como diria João Ubaldo Ribeiro, de "tartamudo oligofrênico", mas a verdade é que mudei meu pensamento em relação ao Senna, e foi justamente naquele fatídico momento que isto ocorreu. É verdade que não digo isso com orgulho, pois pode parecer oportunismo ser um fã de última hora, do mesmo modo que pode soar falsa a amizade póstuma - ver o caso do Alain Prost. Pelo contrário, afirmo tudo isto com humildade, e também com uma ponta de arrependimento, mas também falo, certamente, como alguém que teve coragem de admitir um erro e que, passados 13 anos, acredita ter agido acertadamente.

O período que se seguiu à morte do Senna foi composto por choro, lamentaçõs e piadas - os mais velhos devem se lembrar que o pessoal não perdeu a oportunidade. Naquele tempo, a Internet não estava disseminada como agora e as pilhérias não foram propagadas via correio eletrônico, mas boca-a-boca. Devo dizer, contudo, que algumas eram bastante engraçadas, mesmo que de mal gosto. Em contrapartida, houve momentos emocionantes, sendo que um dos mais interessantes e simbólicos de toda esta tragédia deu-se quando, na segunda-feira após a morte do Ayrton, um colega de faculdade chegou perto do grupo em que eu estava e, desolado, disparou a seguinte frase: "Morreu o Speed Racer". Para os da nossa geração, o piloto do Match 5 era um mito, e a associação com o corredor brasileiro ficou para sempre em minha mente.

Ao receber de um amigo um vídeo que mostra o Ayrton dentro do carro instantes antes da corrida, tive a motivação para escrever este texto. Como disse no início, não sou religioso, mas creio ter um certo sentimento de religiosidade - que alguns talvez chamem de misticismo ou de superstição - e esse sentimento foi tocado pelas imagens a que assisti. No cockpit de sua Williams, Senna parecia visivelmente alterado, abatido, desconfortável. Olhava para dentro de si mesmo, pensando não sei em quê - talvez no acidente do Rubinho na sexta-feira anterior e de sua conseqüente ausência no grid, ou então na morte de seu colega Ratzenberger, ocorrida no sábado. Alguns repórteres afirmam que ele estava preocupado com as condições da pista e talvez preferisse não correr. A verdade é que, vendo sua fisionomia nos momentos antedecedentes à prova, parecia que um presentimento o estava pertubando. A impressão que se tem é que ele percebia algo de diferente, previa um desastre. Anteriormente, Senna já havia manifestado uma experiência no mínimo sui generis: durante uma determinada corrida, acho que foi em Mônaco, ele afirmou ter se concentrado tanto naquela repetição de voltas que teve uma alteração em sua consciência, tendo a nítida impressão de ver a si mesmo por um ângulo externo, enxergando-se de cima. Se eu não estava bêbado ou delirando, ele realmente fez esta declaração, que me pareceu, naquela época, bastante absurda, um perfeito disparate. Talvez hoje eu não esteja assim tão convicto.

Conheço uma série de pessoas das mais diversas crenças, descrenças, e religiões, sendo que algumas acreditam em fenômenos paranormais e outras tantas são espíritas. Para elas, esse tipo de acontecimento desperta bastante interesse e não tanta estranheza, mas, para mim, que tendo a ser sempre racional, algo assim perturba, choca. Este caso, de modo exemplar, gerou em mim um sério baque: ver-me com a nítida impressão de que algo fora de meu entendimento, alheio ao aparentemente seguro mundo regido pelos sentidos, estava ocorrendo naquele primeiro de maio, é consideravelmente perturbador. Olhar o semblante do Senna dentro da Williams, momentos antes da corrida, foi algo, no mínimo, tocante, capaz de fazer rever determinadas certezas, de repensar certas convicções. Foi, sem dúvida, uma experiência inquietante, que traz à memória o sempre citado adágio espanhol: Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay.