quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A última crônica

A última crônica

Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção de bolo com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guará-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no cabelo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido - vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Não às drogas


DIGA NÃO ÀS DROGAS!!!

Ao que tudo indica, texto falsamente imputado a Luís Fernando Veríssimo

(copiado de http://www.geocities.com/sociedadecultura/luizfernandoverissimonaodrogas.html)

Tudo começou quando eu tinha uns 14 anos e um amigo chegou com aquele papo de "experimenta, depois, quando você quiser, é só parar..." e eu fui na dele. Primeiro ele me ofereceu coisa leve, disse que era de "raiz", "natural" , da terra", que não fazia mal, e me deu um inofensivo disco do "Chitãozinho e Xororó" e em seguida um do "Leandro e Leonardo". Achei legal, coisa bem brasileira; mas a parada foi ficando mais pesada, o consumo cada vez mais freqüente, comecei a chamar todo mundo de "Amigo" e acabei comprando pela primeira vez.

Lembro que cheguei na loja e pedi: - Me dá um CD do Zezé de Camargo e Luciano. Era o princípio de tudo! Logo resolvi experimentar algo diferente e ele me ofereceu um CD de Axé. Ele dizia que era para relaxar; sabe, coisa leve... "Banda Eva", "Cheiro de Amor", "Netinho", etc. Com o tempo, meu amigo foi oferecendo coisas piores: "É o Tchan", "Companhia do Pagode", "Asa de Águia" e muito mais. Após o uso contínuo eu já não queria mais saber de coisas leves, eu queria algo mais pesado, mais desafiador, que me fizesse mexer a bunda como eu nunca havia mexido antes, então, meu "amigo" me deu o que eu queria, um Cd do "Harmonia do Samba". Minha bunda passou a ser o centro da minha vida, minha razão de existir. Eu pensava por ela, respirava por ela, vivia por ela! Mas, depois de muito tempo de consumo, a droga perde efeito, e você começa a querer cada vez mais, mais, mais . . . Comecei a freqüentar o submundo e correr atrás das paradas. Foi a partir daí que começou a minha decadência. Fui ao show de encontro dos grupos "Karametade" e "Só pra Contrariar", e até comprei a Caras que tinha o "Rodriguinho" na capa.

Quando dei por mim, já estava com o cabelo pintado de loiro, minha mão tinha crescido muito em função do pandeiro, meus polegares já não se mexiam por eu passar o tempo todo fazendo sinais de positivo. Não deu outra: entrei para um grupo de Pagode. Enquanto vários outros viciados cantavam uma "música" que não dizia nada, eu e mais 12 infelizes dançávamos alguns passinhos ensaiados, sorriamos fazíamos sinais combinados. Lembro-me de um dia quando entrei nas lojas Americanas e pedi a coletânea "As Melhores do Molejão". Foi terrível!! Eu já não pensava mais!! Meu senso crítico havia sido dissolvido pelas rimas "miseráveis" e letras pouco arrojadas. Meu cérebro estava travado, não pensava em mais nada. Mas a fase negra ainda estava por vir. Cheguei ao fundo do poço, no limiar da condição humana, quando comecei a escutar "Popozudas", "Bondes", "Tigrões", "Motinhas" e "Tapinhas". Comecei a ter delírios, a dizer coisas sem sentido. Quando saia a noite para as festas pedia tapas na cara e fazia gestos obscenos. Fui cercado por outros drogados, usuários das drogas mais estranhas; uns nobres queriam me mostrar o "caminho das pedras", outros extremistas preferiam o "caminho dos templos". Minha fraqueza era tanta que estive próximo de sucumbir aos radicais e ser dominado pela droga mais poderosa do mercado: a droga limpa.

Hoje estou internado em uma clínica. Meus verdadeiros amigos fizeram única coisa que poderiam ter feito por mim. Meu tratamento está sendo muito duro: doses cavalares de Rock, MPB, Progressivo e Blues. Mas o meu médico falou que é possível que tenham que recorrer ao Jazz e até mesmo a Mozart e Bach. Queria aproveitar a oportunidade e aconselhar as pessoas a não se entregarem a esse tipo de droga. Os traficantes só pensam no dinheiro. Eles não se preocupam com a sua saúde, por isso tapam sua visão para as coisas boas e te oferecem drogas.

Se você não reagir, vai acabar drogado: alienado, inculto, manobrável, consumível, descartável e distante; vai perder as referências e definhar mentalmente.

Em vez de encher a cabeça com porcaria, pratique esportes e, na dúvida, se não puder distinguir o que é droga ou não, faça o seguinte: Não ligue a TV no Domingo a tarde; Não escute nada que venha de Goiânia ou do Interior de São Paulo; Não entre em carros com adesivos "Fui ... "

Se te oferecerem um CD, procure saber se o suspeito foi ao programa da Hebe ou se apareceu no Sabadão do Gugu; Mulheres gritando histericamente é outro indício; Não compre nenhum CD que tenha mais de 6 pessoas na capa; Não vá a shows em que os suspeitos façam gestos ensaiados; Não compre nenhum CD que a capa tenha nuvens ao fundo; Não compre qualquer CD que tenha vendido mais de 1 milhão de cópias no Brasil; e Não escute nada que o autor não consiga uma concordância verbal mínima. Mas, principalmente, duvide de tudo e de todos. A vida é bela! Eu sei que você consegue! Diga não às drogas.

Falácias

É incrível como a Internet é a melhor invenção já criada para o espalhamento de boatos e inverdades. Vários escritores já foram vítimas de textos "seus" circulando indevidamente na Web. Posso citar, por exemplo, o Arnaldo Jabor e o Luís Fernando Veríssimo. O problema é tão sério que um desses textos surgiu numa disciplina de pós-graduação que freqüento e, para piorar, foi objeto de análise. Já pensou num bando de empolgados neo-analistas literários tecendo observações acerca do estilo do autor, seu humor, sua ironia, etc? Pois é, nossa época exige cuidados... Vou ver se consigo elencar alguns.

Primeiramente, quando alguém for pesquisar um determinado assunto, jamais saia por aí espalhando informações encontradas unicamente em sites como Wikipédia ou blogs de desconhecidos. Esses ambientes costumam conter informações imprecisas e até mesmo inverídicas, já que seus autores normalmente não possuem o rigor técnico necessário. Não estou dizendo para não consultar esses locais, mas sim que é uma boa prática buscar outras referências (tomando o cuidado para não pesquisar em páginas que simplesmente reproduzem o mesmo erro). No caso específico da Wikipédia, há que se ter ainda mais cautela, pois lá alguns erros parecem ser propositais, aparentes tentativas de induzir à desinformação e/ou versões baseadas em interesses incertos.

Segundo: quando receber um texto via e-mail ou coisa parecida, averigüe sua autoria em sites de busca, pois a polêmica se espalha rapidamente. Muito cuidado ao repassar informações autorais, pois você pode estar contribuindo para a disseminação de boatos e mentiras. Basta ver o caso acima de textos do Veríssimo ("Não às drogas") e do Jabor ("Bunda dura", ou algo assim).

Outro atitude importante é não passar para frente textos e mensagens de autoria duvidosa. Se não souber quem escreveu, não repasse. Outro dia recebi um e-mail com um texto escrito por Shakespeare, vejam só. Bastaram alguns instantes de pesquisa na Internet para verificar a inveracidade da mensagem. Há relatos de casos parecidos com os nomes de Borges, Pessoa e muitos outros.

Creio que essas três ressalvas de cautela são suficientes para que tomemos cuidado no repasse de informações, pois, se a Internet é uma poderosa ferramenta de disseminação de conhecimento, também pode ser uma perigosa armadilha na propagação de conteúdo falso, mesmo isto não sendo uma novidade, pois são famosos os casos de textos falsificados na mídia impressa (principalmente em entrevistas para jornais e revistas) e até mesmo em obras de referência, como enciclopédias. A eletrônica apenas ajuda a agilizar o processo.

O próximo post evidencia um caso bastante exemplar do que pode acontecer com informações de origem mal determinada.

sábado, 27 de setembro de 2008

O "Poeta" em "O albatroz" e "Bendição", de Baudelaire, e "Poema de sete faces", de Drummond

O livro “As flores do mal” foi lançado em 1857, não tendo sido bem aceito e considerado ultrajante à moral vigente. O jornal Le Fígaro chegou a fazer-lhe fortes críticas e o autor ainda foi multado pela justiça francesa. Baudelaire, tradutor de Edgar Allan Poe, crítico literário e considerado precursor do movimento simbolista, nasceu em Paris, em 1821. Diz-se que foi influenciado, entre outros, por Poe e Gérard de Nervall (autor de Sylvie, livro analisado por Umberto Eco em “Seis passeios pelo bosque da ficção”), considerados representantes do chamado “romantismo negro”. Em contrapartida, mostra-se um crítico dos excessos sentimentalistas característicos dos escritores românticos. Baudelaire conheceu diversos escritores franceses, incluindo Balzac, e freqüentava a noite parisiense, incluindo o Club des Hashishins, o que certamente o ajudou na composição de outra obra, “Um comedor de ópio”, a última parte dos “Paraísos artificiais”.

Nos dois poemas aqui analisados, “O albatroz” e “Bendição”, ambos pertencentes ao livro “As flores do mal”, o signo “Poeta” aparece com diferentes conotações. Em “O albatroz”, o poeta é comparado ao “príncipe das alturas”, ou seja, à própria ave marinha. O pássaro, com seu vôo majestoso, em grandes altitudes, elegante em seus movimentos assemelha-se ao poeta no exercício de sua arte, alçando vôos com as palavras, os sentimentos e a imaginação. A ave, quando no solo, mostra-se desajeitada, deselegante, tal qual o artista em meio “à corja imunda”, ao populacho. No início de “Bendição”, o poeta surge em um “mundo enfadado”, com a sociedade a injuriá-lo, execrá-lo. Ele, o deserdado, pelo contrário, parece imune à maldade, sendo superior aos que o perseguem. Ainda assim, ele não é aceito pelos comuns; suas qualidades causam-lhes receio e repulsa. Em ambos os poemas transparece a incompreensão da sociedade e dos críticos acerca de sua obra. No primeiro, ele surge desajeitado, estranho, alvo de troça. No segundo, a despeito de sua atitude, é perseguido, ofendido e amaldiçoado.

Carlos Drummond de Andrade nasceu na pequena Itabira, em Minas Gerais, e essa origem manifesta-se freqüentemente na temática de sua obra e em seu estilo. Publicou o livro “Alguma poesia” no ano de 1930 e nele está presente o “Poema de Sete Faces”. Há quem diga que estas representariam diversas faces do autor e buscam explicações e exemplos a fim de embasar tal ponto de vista. O que se pode perceber, certamente, é que o poeta tímido, marginal em certo sentido - à parte da sociedade -, já se encontra presente nesses escritos. Alguns críticos descrevem essa etapa inicial da obra poética de Drummond como aquela em que ele é maior que o mundo, como se pode ver em “Mundo mundo vasto mundo / mais vasto é meu coração”.

No “Poema de sete faces” há algo de desígnio divino – demiúrgico -, algo de missão, na caracterização do poeta. Um “anjo torto” vem a ele e, nominalmente, profetiza sua posição entre os homens: ele será gauche, aquele que é diferente, estranho, lembrando o albatroz a caminhar. Nos versos seguintes, a situação de marginal se concretiza, denunciada pela posição de observador que ele assume. O poeta chega a falar com Deus, imitando Jesus, sentindo-se abandonado. Contudo, ele sabe que é especial, percebe-se como uma pessoa diferenciada e sente-se maior que o mundo. Expressa, ainda, uma imagem melancólica, mencionando a lua e o conhaque como companheiros, talvez confidentes. É interessante notar que o poema inicia-se com um anjo torto e termina com o vocábulo diabo.

O que parece haver de comum na definição de poeta nos três textos analisados é a condição de ser diferente, estranho, deslocado, que acompanha o artista. A sociedade o rejeita, faz pilhérias, o agride, coloca-o à parte, mas, ainda assim, ele se agiganta. Em “O albatroz”, ele voa alto; em “Bendição”, apresenta uma postura de superioridade; no “Poema de sete faces”, seu coração é maior que o mundo. Nos três casos, ele é marginalizado, porém superior aos que o rodeiam.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Bendição

Quando, por uma lei das supremas potências,
O Poeta surge aqui neste mundo enfadado,
Sua mãe a verter blasfêmias e insolências
Crispa as mãos contra Deus, que a contempla apiedado:

- "Ah! tivesse eu gerado um rolo de serpentes,
Em vez de alimentar esta irrisão comigo!
Mal haja a noite em que, nos gozos inconscientes,
Meu ventre concebeu o meu próprio castigo!

"Já que entre todas as mulheres fui eleita
Para ser a abjeção de um desolado esposo,
E não posso queimar, como ao fogo se deita
Um bilhete de amor, este aleijão monstruoso,

"Eu farei recair teu ódio, que me esmaga,
Sobre o instrumento vil do teu rancor cruento,
E tão bem torcerei a árvore má, que a praga
Não lhe permitirá deitar um só rebento!"

Engole a espuma, então, do seu ódio e, atordoada,
Sem poder compreender os desígnios eternos,
Ela mesma prepara a fogueira votada
Aos crimes maternais no fundo dos Infernos.

Sob a guarda, porém, de um Anjo tranparente,
Embriaga-se de sol o Filho deserdado,
E em tudo quanto come e quanto bebe sente
Um gosto de ambrosia e néctar encarnado.

Fala à nuvem do céu, brinca com a ventania
E faz da Via-Sacra um caminho de festa;
E o Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.

Os que ele quer amar olham-no com receio,
Ou, confiando demais na sua amenidade,
Empenham-se em tirar-lhe um queixume do seio
E experimentam nele a sua atrocidade.

Hipócritas, no vinho e no pão que o alimentam
Eles misturam cinza a impuras cusparadas;
Rejeitam tudo o que ele toca, e se lamentam
Por terem sujado os pés seguindo-lhe as pegadas.

Charles Baudelaire

domingo, 7 de setembro de 2008

Flores do Mal


O Albatroz

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.

Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.

Quem sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!

O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

(Charles Baudelaire, 1821-1867)

Biblioteca - Os Tambores de São Luís 1


Gostaria de exprimir, a partir de agora, algumas impressões acerca dos livros que tive a oportunidade de ler. Pretendo começar pelo mais recente - e ainda não concluído -, tanto por razões metodológicas - se o ponto de partida é arbitrário, por que não iniciar pelo final da lista? - quanto pelo fato das leituras mais atuais estarem presentes de maneira mais viva na mente.

Pelo título da postagem, é óbvio que o livro em questão chama-se "Os tambores de São Luís", de Josué Montello. Há muito tempo um primo meu vem insistindo para que eu lesse a obra. Mais ou menos um ano atrás, eu a adquiri e coloquei-a na estante, esperando pelo momento em que teria vontade de lê-la. Após alguns livros passarem pelo meu criado mudo - e depois de inúmeras indagações do meu primo se eu já o tinha lido -, decidi retirá-lo do seu nicho na estante e levá-lo para um convívio o qual julgara que seria demorado, devido à espessura do tomo. Rematado engano, este. A leitura do texto mostrou-se bastante fluida, sendo a atenção despertada pelo pitoresco dos detalhes acerca da vida no Maranhão escravocrata e dos sofrimentos e aventuras de Damião, protagonista da obra. Aliás, o fato de um negro ser a principal personagem de um romance já atribui ao texto um caráter diferenciado, pois muda a perspectiva de análise. Passa-se a enxergar a sociedade através da ótica dos oprimidos, dos sofredores, daqueles que são explorados e, literalmente, escravizados por um sistema tão aviltante.

Outro fato que chama muito a atenção é a capacidade de Damião. É ele o homem superior da obra. Superior em inteligência, em moral, em altivez e coragem. Os outros negros e, principalmente, os brancos que o cercam, lhe são visivelmente inferiores, e esta é uma característica do romance que ajuda a dar-lhe um caráter ainda mais especial, inovador. Damião me faz recordar, inúmeras vezes, do Julien Sorel, de Stendhal - em "O vermelho e o negro" -, tanto pela inteligência - e memória - superior, quanto pela necessidade de ingressar nos quadros da Igreja Católica para poder escapar da miséria e da opressão. É verdade que Julien desenvolve suas atividades movido pela ambição, enquanto Damião tenta - pelo menos no início - apenas sobreviver. Mas também é válido interpretar que a percepção deste último de que ele poderia, ou melhor, deveria liderar os negros em busca da liberdade, é, do mesmo modo, uma expressão de ambição. Uma outra abordagem poderia sugerir que Damião assumisse isto como um dever pessoal, uma obrigação. Seu dom seria um presente de Deus, ou dos deuses, e ele não teria o direito de desperdiçá-lo, acomodando-se e não ajudando aqueles que sofrem as dores do cativeiro. Essa acomodação, por sinal, parece ser o principal motivo de suas angústias.

Bem, agora é que cheguei à metade do livro. Espero concluir brevemente sua leitura e voltar a este espaço para compartilhar - comigo mesmo e com alguma alma perdida - outras impressões.