Por que não eu? Esta é uma pergunta retirada de um livro do escritor israelense Amós Oz. Ele, em "Contra o Fanatismo", indaga sobre porque não teria também o direito de opinar, se todos têm uma idéia concebida acerca de tudo e em tudo metem o bedelho. Assim, decidi publicar alguns textos e opiniões usando mão do meu próprio direito de dar pitaco, principalmente naquilo que não entendo.
sábado, 27 de setembro de 2008
O "Poeta" em "O albatroz" e "Bendição", de Baudelaire, e "Poema de sete faces", de Drummond
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Bendição
O Poeta surge aqui neste mundo enfadado,
Sua mãe a verter blasfêmias e insolências
Crispa as mãos contra Deus, que a contempla apiedado:
- "Ah! tivesse eu gerado um rolo de serpentes,
Em vez de alimentar esta irrisão comigo!
Mal haja a noite em que, nos gozos inconscientes,
Meu ventre concebeu o meu próprio castigo!
"Já que entre todas as mulheres fui eleita
Para ser a abjeção de um desolado esposo,
E não posso queimar, como ao fogo se deita
Um bilhete de amor, este aleijão monstruoso,
"Eu farei recair teu ódio, que me esmaga,
Sobre o instrumento vil do teu rancor cruento,
E tão bem torcerei a árvore má, que a praga
Não lhe permitirá deitar um só rebento!"
Engole a espuma, então, do seu ódio e, atordoada,
Sem poder compreender os desígnios eternos,
Ela mesma prepara a fogueira votada
Aos crimes maternais no fundo dos Infernos.
Sob a guarda, porém, de um Anjo tranparente,
Embriaga-se de sol o Filho deserdado,
E em tudo quanto come e quanto bebe sente
Um gosto de ambrosia e néctar encarnado.
Fala à nuvem do céu, brinca com a ventania
E faz da Via-Sacra um caminho de festa;
E o Espírito que o segue em sua romaria
Chora ao vê-lo feliz como ave da floresta.
Os que ele quer amar olham-no com receio,
Ou, confiando demais na sua amenidade,
Empenham-se em tirar-lhe um queixume do seio
E experimentam nele a sua atrocidade.
Hipócritas, no vinho e no pão que o alimentam
Eles misturam cinza a impuras cusparadas;
Rejeitam tudo o que ele toca, e se lamentam
Por terem sujado os pés seguindo-lhe as pegadas.
domingo, 7 de setembro de 2008
Flores do Mal

Às vezes, por prazer, os homens de equipagem
Pegam um albatroz, enorme ave marinha,
Que segue, companheiro indolente de viagem,
O navio que sobre os abismos caminha.
Mal o põem no convés por sobre as pranchas rasas,
Esse senhor do azul, sem jeito e envergonhado,
Deixa doridamente as grandes e alvas asas
Como remos cair e arrastar-se a seu lado.
Quem sem graça é o viajor alado sem seu nimbo!
Ave tão bela, como está cômica e feia!
Um o irrita chegando ao seu bico um cachimbo,
Outro põe-se a imitar o enfermo que coxeia!
O Poeta é semelhante ao príncipe da altura
Que busca a tempestade e ri da flecha no ar;
Exilado no chão, em meio à corja impura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
Biblioteca - Os Tambores de São Luís 1

Gostaria de exprimir, a partir de agora, algumas impressões acerca dos livros que tive a oportunidade de ler. Pretendo começar pelo mais recente - e ainda não concluído -, tanto por razões metodológicas - se o ponto de partida é arbitrário, por que não iniciar pelo final da lista? - quanto pelo fato das leituras mais atuais estarem presentes de maneira mais viva na mente.
Pelo título da postagem, é óbvio que o livro em questão chama-se "Os tambores de São Luís", de Josué Montello. Há muito tempo um primo meu vem insistindo para que eu lesse a obra. Mais ou menos um ano atrás, eu a adquiri e coloquei-a na estante, esperando pelo momento em que teria vontade de lê-la. Após alguns livros passarem pelo meu criado mudo - e depois de inúmeras indagações do meu primo se eu já o tinha lido -, decidi retirá-lo do seu nicho na estante e levá-lo para um convívio o qual julgara que seria demorado, devido à espessura do tomo. Rematado engano, este. A leitura do texto mostrou-se bastante fluida, sendo a atenção despertada pelo pitoresco dos detalhes acerca da vida no Maranhão escravocrata e dos sofrimentos e aventuras de Damião, protagonista da obra. Aliás, o fato de um negro ser a principal personagem de um romance já atribui ao texto um caráter diferenciado, pois muda a perspectiva de análise. Passa-se a enxergar a sociedade através da ótica dos oprimidos, dos sofredores, daqueles que são explorados e, literalmente, escravizados por um sistema tão aviltante.
Outro fato que chama muito a atenção é a capacidade de Damião. É ele o homem superior da obra. Superior em inteligência, em moral, em altivez e coragem. Os outros negros e, principalmente, os brancos que o cercam, lhe são visivelmente inferiores, e esta é uma característica do romance que ajuda a dar-lhe um caráter ainda mais especial, inovador. Damião me faz recordar, inúmeras vezes, do Julien Sorel, de Stendhal - em "O vermelho e o negro" -, tanto pela inteligência - e memória - superior, quanto pela necessidade de ingressar nos quadros da Igreja Católica para poder escapar da miséria e da opressão. É verdade que Julien desenvolve suas atividades movido pela ambição, enquanto Damião tenta - pelo menos no início - apenas sobreviver. Mas também é válido interpretar que a percepção deste último de que ele poderia, ou melhor, deveria liderar os negros em busca da liberdade, é, do mesmo modo, uma expressão de ambição. Uma outra abordagem poderia sugerir que Damião assumisse isto como um dever pessoal, uma obrigação. Seu dom seria um presente de Deus, ou dos deuses, e ele não teria o direito de desperdiçá-lo, acomodando-se e não ajudando aqueles que sofrem as dores do cativeiro. Essa acomodação, por sinal, parece ser o principal motivo de suas angústias.
Bem, agora é que cheguei à metade do livro. Espero concluir brevemente sua leitura e voltar a este espaço para compartilhar - comigo mesmo e com alguma alma perdida - outras impressões.
sábado, 7 de junho de 2008
Poema em linha reta
Fernando Pessoa(Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
Cenas do trânsito 2 - Seu Cardeal
Seu Cardeal esteve casado por exatos sessenta e um anos. Dona Amelinha, flor de quatorze primaveras que colhera na mocidade, fora sua companheira por toda a existência. Juntos, tiveram oito filhos criados vivos, os quais elaboraram arduamente dezessete netos, até o momento - Eita mundão! Dois fazendo oito e oito tendo só dezessete. A proporção mudou muito com a passagem dos tempos. Ainda mais que tem alguns que nunca vão produzir nada... - A família conta ainda com dois bisnetos, que sempre foram os mimos dos patriarcas. Contudo, como nada é eterno, dona Amelinha se foi. Foi docemente, assim como viveu. Tal qual um passarinho, adoeceu, definhou e morreu num breve espaço de tempo. Devido à grande ligação que unia o casal, seu Cardeal não conseguiu se recuperar do baque.
Ele, que fumava cigarros apenas de vez em quando, sempre aliados a uma cachacinha medicinal, adorava mesmo era os charutos. Consumia os cubanos - raramente, devido aos custos - e principalmente os baianos. Sempre havia um na caixinha para compartilhar com os amigos. Eram conhecidas as tardes de xadrez às quintas com o seu Onório, envoltos na fumaça e num silêncio concentrado. Dizia-se à boca miúda que o visitante era muito melhor jogador, mas deixava o outro vencer de vez em quando para que o prazer do embate e, principalmente, do fumo perdurasse indefinidamente. Dona Amelinha, claro, sempre estava ao lado do marido, inalando porções da névoa espessa, ouvindo o vazio de vozes entrecortado pela sonoridade macia do veludo das peças em contato com o tabuleiro e fazendo seu habitual crochê. Toda a família era abastecida por suas criações, que sempre tinham destino e momento certo - ela controlava metodicamente os aniversários e datas importantes. Todos ganhavam toalhas, centros de mesa, colchas de cama, roupas para as mulheres irem à praia e outros tantos itens de seu repertório.
Dona Amelinha, companheira inseparável, dividia com ele, além das tardes como expectadora de xadrez, um tabuleiro de gamão, incontáveis lembranças - registradas em fotos de infinitos álbuns -, enormes extensões de silêncio cúmplice e, principalmente, o café. Era um hábito sagrado na casa, pontualmente às três e meia da tarde, o consumo do café. Café coado, forte e doce, como somente ela sabia fazer. Esse costume tinha um caráter religioso no horário e na obrigação. Nos sessenta e um anos que estiveram juntos, raríssimas foram as vezes em que não houve o ritual do café, sendo que todos esses momentos estiveram relacionados a grandes crises: a morte de um dos filhos durante o parto, o falecimento dos pais do casal e um pequeno flerte que seu Cardeal teve com uma certa dama. Como ele era dono de um comércio que funcionava na parte da frente da casa, sempre estava presente no meio da tarde para consumir a deliciosa bebida negra. Geralmente ela vinha acompanhada de queijo de coalho, bolacha d'água e algum dos bolos que a matriarca preparava com grande habilidade.
Bem, o fato é que, sem dona Amelinha e sem o café, o homem ruiu. Ruiu como as paredes de um castelo caem ante um ataque feroz. Além do cafezinho, já foi dito que seu Cardeal sempre adorou os charutos. Depois da morte da mulher, contudo, parece que esse hábito de décadas disparou um processo que estava engatilhado há tempos em seu corpo. O homem, que antes possuía uma carona vermelha, carnes vastas e uma boa dose de toucinho, secou como as plantas deixadas sem cuidado ou como os pés de pimenta expostos a presenças maléficas. Perdeu, em poucos meses, mais de vinte quilos. Ficou triste, de olhar fixo no infinito, sentado pelos cantos,
Destruído, mudo e esquelético, certo dia seu Cardeal foi bater na emergência hospitalar. A família já sabia do câncer e todos tiveram certeza de que essa crise representava seus últimos estertores. Ele sempre se negara a fazer o tratamento, pois sabia que não havia esperanças - e nem as poderia querer. Dois dias após a internação, foi mandado de volta a casa para morrer
***
Denis precisa deixar o escritório no meio da tarde para visitar um cliente. Já devia ter falado com o sujeito há dois dias e o patrão não permitia que ele se esquecesse disso. O cara era um saco - o cliente, mas o mesmo serve para o chefe - e Denis postergou inconscientemente sua ida à loja do dito cujo. Sem mais poder adiar, saiu apressado, pois ainda tinha que voltar para resolver algumas pendências, pegou o carro e foi encarar o inevitável. Ele, felizmente, gostava de dirigir - talvez não tanto com o trânsito caótico desta enorme cidade - e podia dar-se ao luxo do friozinho do ar condicionado e de uma boa música. Seleciona algumas de sua preferência e programa o som do carro de modo aleatório. Denis gosta de músicas antigas, muitas mais velhas do que ele, e hoje escolheu alguns de seus clássicos. Dirigindo e batucando no volante, ouve um velho blues dos Yardbirds. Segue o ritmo compassado de Little Red Rooster, com a voz rouca e forte de John Lee Hooker e as grandes guitarras da banda - pela qual passaram os lendários Jeff Beck, Jimmy Page e Eric Clapton. Empolga-se com a sonoridade da música negra, passa as marchas de modo agressivo, freia com a ponta do pé e acelera com o calcanhar. Faz as curvas de maneira ágil e sente um pouco de liberdade, longe do trabalho, do patrão e dos clientes chatos. Começa, então, a tocar What a woman! de Howlin' Wolf, um gigantesco gênio do blues com sua também enorme voz, e Denis continua imerso em sua viagem. Dirige por ruas estreitas, de calçamento, às vezes o trânsito pára completamente, mas ele está bem. A música tem a capacidade de apaziguar seu espírito. O trânsito flui um pouco e ele pode acelerar mais e sentir o cansado motor se esforçando. O modo aleatório sorteia, então, Mrs. Robinson.
Paul Simon escreveu essa música para um filme chamado The Graduate - mais conhecido como "A primeira noite de um homem" -, no qual a tal Mrs. Robinson tem um caso amoroso com o personagem interpretado por Dustin Hoffman. É uma música interessante, pois tem uma parte intraduzível - o koo-koo-ka-choo - e fala do grande jogador de beisebol Joe Di Maggio, o sortudo e exasperado primeiro marido da Marylin Monroe. Denis sabe de tudo isso porque gosta de música e assistiu diversas vezes ao filme, que por sinal foi fonte de inspiração para várias produções similares. Assim, com a cadência do blues quebrada pela música leve e rápida da dupla Simon e Garfunkel, Denis dirige despreocupadamente seu carro. Segue por uma rua estreita, de forte movimento, pela faixa que deveria ser a lenta, fazendo manobras defensivas e outras nem tanto. Não é por pressa que ele guia assim, apenas é seu jeito. Ele está fazendo coro àquela passagem que fala A nation turns its lonely eyes to you... quando seus olhos captam uma cena espantosa.
Da calçada surge um velhinho esquelético, com ataduras ou esparadrapos no braço esquerdo e na região próxima ao pescoço, caminhando lentamente, feito um zumbi. Ele olha diretamente à frente, como que hipnotizado por uma miragem, e progride, passada após passada. Sua mão parece segurar algo, mas não há nada lá. O homem está cruzando a rua e o carro segue velozmente na direção dele. Com uma manobra rápida, Denis consegue desviar-se da figura esquálida, mas não tem tempo de sentir alívio. O motorista do carro à sua esquerda infelizmente não conta com a mesma sorte. Ouve-se o barulho arrastado de uma freada, seguido de um baque surdo. Denis, assustado, pára o carro. Sua respiração demora para voltar ao normal. Perto do local da batida, começa a aglomerar-se uma multidão. São precisamente três e trinta e cinco da tarde.
sábado, 3 de maio de 2008
Sons of an oblique angel

POEMA DE SETE FACES
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do -bigode,
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade

LET'S PLAY THAT
Quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
Do CD Torquato Neto - Todo Dia É Dia D
Torquato Neto (musicado por Jards Macalé)
Vários Artistas, Dubas Música, 2002

ATÉ O FIM
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pr'onde mesmo que vou
Mas vou até o fim
Como já disse, era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Do LP Chico Buarque - Polygram, 1978

COM LICENÇA POÉTICA
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
— dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável.
Eu sou.
In Adélia Prado, Poesia Reunida
Siciliano, São Paulo, 1991
ANOTHER SON - A BASTARD ONE
Quando nasci um anjo confuso
Apareceu para mim.
Falou de tempos futuros,
Discursava em grego e latim,
Descrevendo alguns dias escuros
E seus mais complexos dilemas.
Espírito do tempo era um dos temas.
Seria este anjo alemão?
Deve ter lido filosofia,
Que é causa noite e dia,
De reconhecida confusão.
Coisa que não se entende direito.
Discurso difícil o do sujeito.
Inda mais pr'uma criança
Que nascida ainda não era.
Que sem ter desconfiança,
Sequer sobre quem o gera,
Tinha o juízo muito estreito.
Mas o estrago já estava feito
E a confusão estabelecida.
Passado o véu da lembrança,
Sendo a memória perdida,
Restou apenas sua herança
De permanente desconforto.
Pau que nasce torto morre torto...
Confuso desde o berço
Crescido no sem rumo
Desde o fim até o começo
Levado sem um prumo
Sem conhecer uma missão.
Mas passou o tempo da razão.
No lugar correto na hora certa,
Mudança virou palavra da moda.
Confuso mas de mente esperta,
Coisa que chateia e incomoda,
Começa então a ambição.
A duras penas aprendida a lição,
De quem desafina muito apanha
E ofende aquele que não aplaude,
Entende a verdade de que sem manha
Não se combate a grande fraude
Nem o que há de mais escuso.
Impossível então ficar recluso.
Terão sido outros visitados?
Mais alguns que possam refletir,
Não estando mais vendados.
Que sejam poucos, mas devem existir
E não seja eu afinal um intruso,
O único conhecido de um anjo muito confuso.